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Ivan Cesar.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Geração Saúde e a Folia de Carnaval

A Geração Saúde e a Folia de Carnaval

Um dia desses conversava com um senhor japonês que me dizia estar estarrecido com a capacidade de nós brasileiros irmos às festas dirigindo nossos próprios carros. Eles não. Conscientes de que querem beber e se divertir, eles deixam os carros em casa e vão de taxi, já que as multas por dirigir embriagado são elevadíssimas, e, que, os riscos de serem multados, e, de se envolverem em acidentes, não compensam. Pelo que tenho notado esta idéia já está chegando por aqui, mas a grande maioria ainda não pensa assim, o que é uma pena.

Estive pensando em nosso Carnaval e acho que, como em tudo na vida, deve prevalecer o bom senso. Não acredito que a libação alcoólica seja realmente divertida, e sim uma desorganizada prova de desreipeito, a si próprio e ao próximo. Se eu fosse brincar o Carnaval e quisesse me divertir, tendo quatro dias de liberdade e folia, aproveitaria a festa aos poucos. Desde a primeira noite me preocuparia em estar bem, o que para mim significaria estar descansado e lúcido para o que fosse acontecer, um desfile em um bloco de carnaval, numa escola de samba ou a ida a um baile noturno.

Acho que nestes dias de folia não devemos exagerar em comida e nem estar em jejum, como muitos fazem, acreditando serem super-homens. Um bom café da manhã e uma caminhada na praia com alongamento e refeições freqüentes nos preparam para os blocos vespertinos; um sono repousante à tarde, para as festas que terminam ao amanhecer. Durante o dia, refeições freqüentes, e, se for o caso, entre uma cerveja e outra, um tempo para que o fígado se recupere do excesso, já que o álcool é metabolizado pelo fígado num ritmo próprio, individual, que se ultrapassado nos leva ao seu excesso no sangue, podendo atingir níveis de embriaguez. Saber beber é fundamental, e quem não se conhece ou quem não sabe se controlar é melhor esquecer o assunto e ficar nos refrigerantes.

Comer alguma coisa sempre evita o terrível “porre” e o vexame com os amigos ou com a sua namorada. Seu fígado nunca vai agüentar tanto, vá devagar, beba light, coma e se divirta. Entre uma dose e outra dê um tempo, não seja um problema para os seus amigos, isto é, se ainda estiverem por perto.

Tudo bem, a primeira noite, o primeiro desfile ou o primeiro dia foi “liso”, sem dar bandeira, abrindo a porta de casa sem fazer muito barulho e sem acordar seus pais com um whoooaaa desnecessário. Muito bem, durma bem. Mas, um bom conselho, coma alguma coisa antes de dormir, talvez um copo de leite, uma fruta, ou até mesmo uma refeição mais substancial para estar bem para a praia de amanhã. Na praia, não esqueça, suco de frutas e água de côco, sempre serão bem vindos, mas uma cervejinha gelada mais tarde, só após a recuperação.

Roupas leves. Durma pelo menos o mínimo necessário. Respeite seu corpo. Sempre forre o estômago. Nunca beba em jejum, principalmente prolongado, a menos que tenha um amigo que se proponha a tocar a campainha de sua casa e deixar você encostado na porta (pode acreditar, depois de tocar a campainha, antes de seus pais abrirem a porta, é capaz dele sair correndo, deixando você cair quando a porta for aberta). E também não vai dar dessa de no dia seguinte, com aquela dor de cabeça, não se lembrar do que fez; isso é do tempo do programa “Viva o Gordo”, programa do Jô Soares na Globo. Lembre-se de que não há remédio realmente indicado e eficaz para ressaca, e sim medicações sintomáticas, como analgésicos para dor de cabeça, remédios para enjôo e para gastrite. Para o fígado mesmo, na prática, nada funciona.

Carro, se você costuma beber, só se sua namorada ou um amigo que não bebe for dirigindo. Use cinto de segurança sempre, principalmente se a esta altura do campeonato você não estiver mais se segurando. E, muito cuidado com os outros motoristas que podem ter se excedido.

É bom lembrar que dias seguidos de excesso alcoólico é causa de hepatite alcoólica, que pode ser grave a ponto de necessitar de internação hospitalar, sem falar da temível pancreatite alcoólica. Um conselho, brinque com saúde, mas brinque mesmo, careta, pois assim você pode participar com sua companhia sem encontrar confusão com interessados em tumultuar a festa. Se você não estiver acompanhado sempre poderá haver um encontro, às vezes mais íntimo; não se esqueça, previna-se.

Nos bailes de Carnaval não é raro ver casais que se amam e sempre se deram bem, discutindo sem motivo, por conta dos excessos. Drogas e álcool nunca são um bom caminho, geram depressão ou agressividade imediata em algumas pessoas mais susceptíveis, dependendo da predisposição de cada um. Alimente-se nesses dias o necessário para compensar a energia que anda gastando por aí, o que em geral não é pouco. Coma preferencialmente comidas frescas, sucos de frutas, e, verduras. Nada de comidas pesadas, gordura e de comidas de rua, de origem incerta. Beber muito líquido neste calor é essencial. O álcool desgasta o organismo levando à falta de líquidos, vitaminas e sais minerais; compense. Como no esporte, durante a atividade não há necessidade de excesso de proteínas e de gordura, e sim de energéticos, como massas, cereais, frutas e verduras frescas. Não coma demais, e sim frequentemente. Estar apto para aproveitar o dia seguinte é essencial ao folião. O Carnaval tem quatro noites e não termina em um dia. Lembre-se de que o som do batuque é extasiante e você deve estar lúcido e preparado para esta festa. Carnaval deve ser uma festa de alegria e saúde, nunca um desvario sem rumo para aqueles que sabem aproveitar a boa vida.

Então, aproveite muito bem este Carnaval! Que seja feliz.

Ivan Cesar O. Correia de Sousa é médico, Intensivista, Endocrinologista e Nutrólogo (artigo original publicado no Jornal “A Tribuna de Santos” em 24 de fevereiro de 1995).